A revolução silenciosa do agronegócio goiano: tecnologia, escala e novos atores
Goiás consolida sua posição como potência agrícola nacional com a adoção acelerada de tecnologias de precisão e a entrada de novos investidores no setor.
Há algo de paradoxal na agricultura goiana contemporânea. De um lado, tratores autônomos guiados por GPS percorrem fazendas de 50 mil hectares no sudoeste do estado, aplicando insumos com precisão milimétrica. De outro, pequenos produtores familiares de municípios como Pirenópolis e Cavalcante ainda dependem de técnicas centenárias e de crédito rural escasso. Essas duas realidades coexistem no mesmo estado, e entender essa dualidade é fundamental para compreender o agronegócio goiano do século XXI.
Goiás é hoje o terceiro maior produtor de soja do Brasil, com colheita de 15,2 milhões de toneladas na safra 2025/2026. O estado também lidera a produção nacional de sorgo e cana-de-açúcar, e ocupa posição de destaque em milho, algodão e girassol. Esses números representam uma transformação que levou décadas, mas que se acelerou dramaticamente nos últimos dez anos com a adoção de tecnologias de agricultura de precisão.
A agricultura de precisão — conjunto de tecnologias que usa sensores, satélites, drones e inteligência artificial para otimizar a produção — está transformando a forma como as grandes fazendas goianas operam. Sistemas de monitoramento em tempo real permitem identificar variações de solo, umidade e nutrientes em escala de metros quadrados, possibilitando aplicações diferenciadas de fertilizantes e defensivos que reduzem custos e impacto ambiental.
"Hoje eu consigo saber, em tempo real, qual é a umidade do solo em qualquer ponto da fazenda, qual é a previsão de produtividade por talhão e onde preciso aplicar mais ou menos insumo. Isso era impossível há dez anos", disse o produtor rural Henrique Albuquerque, que administra uma fazenda de 8 mil hectares no município de Jataí.
Mas a tecnologia não está chegando de forma igualitária. Pequenos produtores, que representam 70% dos estabelecimentos rurais goianos mas apenas 15% da área cultivada, têm acesso muito limitado a essas ferramentas. O custo de implementação de sistemas de agricultura de precisão ainda é proibitivo para quem tem menos de 500 hectares.