Cerrado em números: o que os dados revelam sobre o bioma mais ameaçado do Brasil
Pesquisadores compilam o maior banco de dados já reunido sobre o Cerrado e os resultados são alarmantes — mas também apontam caminhos.
O Cerrado, bioma que cobre 24% do território brasileiro e abriga a maior biodiversidade de savana do mundo, perdeu 53% de sua cobertura vegetal original desde os anos 1950. Esse número, já conhecido, ganhou novos contornos com o lançamento do Atlas do Cerrado 2026, o mais abrangente levantamento já realizado sobre o bioma, que reúne dados de 47 instituições de pesquisa e cobre o período de 1985 a 2025.
Os dados do Atlas revelam que o ritmo de desmatamento no Cerrado, longe de diminuir, acelerou na última década. Entre 2015 e 2025, o bioma perdeu 18,4 milhões de hectares — área equivalente ao estado de São Paulo. A maior parte dessa perda ocorreu em Goiás, Mato Grosso e Bahia, estados com maior pressão da expansão agrícola.
Mas o Atlas também traz dados que apontam para possibilidades de reversão. Áreas que foram desmatadas e depois abandonadas mostraram capacidade de regeneração natural significativa quando a pressão antrópica foi removida. Em 15 anos, algumas dessas áreas recuperaram até 60% da biodiversidade original.
"O Cerrado é resiliente. Ele quer se recuperar. O que precisamos é dar a ele o espaço e o tempo para isso", disse a ecóloga Dra. Vera Pillar, uma das coordenadoras do Atlas.
A pesquisa também identificou que as Unidades de Conservação existentes no Cerrado são insuficientes para proteger a biodiversidade do bioma. Apenas 8,2% da área original do Cerrado está sob alguma forma de proteção legal, contra a meta de 30% estabelecida pelo Acordo de Kunming-Montreal.